{"id":129305,"date":"2025-10-08T15:31:56","date_gmt":"2025-10-08T18:31:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/?p=129305"},"modified":"2025-11-18T17:49:51","modified_gmt":"2025-11-18T20:49:51","slug":"smart-drugs-e-o-mito-do-desempenho-maximo-medicamentos-prometem-mais-performance-mas-a-que-custo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/es\/newsfitbr\/smart-drugs-e-o-mito-do-desempenho-maximo-medicamentos-prometem-mais-performance-mas-a-que-custo\/","title":{"rendered":"&#8216;Smart drugs&#8217; e o mito do desempenho m\u00e1ximo: medicamentos prometem mais performance, mas a que custo?"},"content":{"rendered":"<p><em>Uso de rem\u00e9dios para foco e concentra\u00e7\u00e3o cresce entre alunos e profissionais<\/em>;<em> especialistas alertam para efeitos colaterais, risco de depend\u00eancia e desigualdade de acesso<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por Mar\u00edlia Marasciulo, da Ag\u00eancia Einstein<br \/>8\/10\/2025<\/p>\n<p><strong>A promessa de um comprimido capaz de aumentar foco, concentra\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria parece sedutora em uma sociedade cada vez mais competitiva<\/strong>. N\u00e3o por acaso, as chamadas <em>smart drugs<\/em> t\u00eam se popularizado \u2014 e despertado preocupa\u00e7\u00e3o na comunidade cient\u00edfica.<\/p>\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/es\/fitness-brasil-expo-2026\/\"><strong>+ Fitness Brasil Expo: o maior evento de fitness, sa\u00fade e bem-estar da Am\u00e9rica Latina<\/strong><br \/><\/a><a href=\"https:\/\/marketing.fitnessbrasil.com.br\/panorama-setorial-2024-pt\"><strong>+ Conhe\u00e7a e baixe gratuitamente o Panorama Setorial Fitness Brasil 2024<\/strong><\/a><br \/><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/fitnessbrasil_oficial\/\"><strong>+ Siga a Fitness Brasil no Instagram<\/strong><\/a><\/h4>\n<p><strong>S\u00e3o medicamentos j\u00e1 conhecidos para o tratamento de dist\u00farbios como o transtorno de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o e hiperatividade (TDAH)<\/strong> e narcolepsia, mas usados sem indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica por quem acredita precisar de um est\u00edmulo extra no dia a dia. Entre esses f\u00e1rmacos est\u00e3o o metilfenidato, vendido como Ritalina e Concerta; lisdexanfetamina, conhecida como Venvanse; ou a modafinila, comercializada como Provigil.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m entram nesse universo antidepressivos e ansiol\u00edticos, nootr\u00f3picos cl\u00e1ssicos \u2014 usados para dist\u00farbios cognitivos ligados ao envelhecimento, dem\u00eancias e sequelas de AVC \u2014 e suplementos conhecidos como nutrac\u00eauticos, como cafe\u00edna, ginseng e creatina.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-scaled.jpeg\"><img decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\" data-src=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-1200x800.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129306 lazyload\" data-srcset=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-1200x800.jpeg 1200w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-600x400.jpeg 600w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-1536x1024.jpeg 1536w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-2048x1365.jpeg 2048w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-18x12.jpeg 18w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_287287102-510x340.jpeg 510w\" data-sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1200px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1200\/800;\" \/><\/a><\/figure>\n<p><strong>Um levantamento conduzido pela Universidade de Exeter durante a pandemia de Covid-19 e <\/strong><strong><a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/psychology\/articles\/10.3389\/fpsyg.2024.1356496\/full\">publicado na revista <\/a><a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/psychology\/articles\/10.3389\/fpsyg.2024.1356496\/full\"><em>Frontiers in Psychology<\/em><\/a><\/strong><strong> acompanhou 736 estudantes e funcion\u00e1rios de universidades no Reino Unido.<\/strong> O estudo revelou um crescimento de 42% no uso de modafinila e de 30% no consumo de nutrac\u00eauticos em altas doses. \u201c<strong>Do ponto de vista cl\u00ednico, esses medicamentos podem at\u00e9 trazer alguns efeitos positivos, mas \u00e9 importante colocar isso em perspectiva\u201d<\/strong>, afirma o psiquiatra Luiz Zoldan, gerente m\u00e9dico do Espa\u00e7o Einstein de Sa\u00fade Mental e Bem-estar, do Einstein Hospital Israelita. \u201cEm pessoas saud\u00e1veis, os efeitos costumam ser pequenos, passageiros e muito longe da ideia de um \u2018rem\u00e9dio que aumenta a intelig\u00eancia\u2019.\u201d<\/p>\n<p><strong>A neurocientista Barbara Sahakian, professora de neuropsicologia cl\u00ednica na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, chega a conclus\u00f5es semelhantes em seus estudos. <\/strong>Ela atuou em ensaios que mostraram que a modafinila pode melhorar a flexibilidade cognitiva, reduzir a impulsividade e aumentar o prazer na realiza\u00e7\u00e3o de tarefas. \u201cComo tantas pessoas est\u00e3o usando drogas como metilfenidato e modafinila, \u00e9 importante saber se elas s\u00e3o seguras e eficazes a longo prazo\u201d, afirma. No entanto, o que as pesquisas conclu\u00edram \u00e9 que os ganhos s\u00e3o modestos e que mais investiga\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias.\u201d<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ritmo acelerado<\/strong><\/h2>\n<p>A busca por subst\u00e2ncias capazes de alterar o funcionamento da mente acompanha a humanidade h\u00e1 mil\u00eanios<strong>. Povos de diferentes culturas usaram plantas e compostos em rituais religiosos, pr\u00e1ticas espirituais ou para aumentar a resist\u00eancia em condi\u00e7\u00f5es adversas. <\/strong>Um exemplo citado em <a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/eclinm\/article\/PIIS2589-5370(19)30107-5\/fulltext\">editorial da revista<\/a><a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/eclinm\/article\/PIIS2589-5370(19)30107-5\/fulltext\"><em> eClinicalMedicine,<\/em><\/a><a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/eclinm\/article\/PIIS2589-5370(19)30107-5\/fulltext\"> da <\/a><a href=\"https:\/\/www.thelancet.com\/journals\/eclinm\/article\/PIIS2589-5370(19)30107-5\/fulltext\"><em>The Lancet<\/em><\/a>, foi a descoberta da cova de um xam\u00e3 nos Andes, de mil anos atr\u00e1s, enterrado com plantas psicoativas como coca e alucin\u00f3genos.<\/p>\n<p>\u201cO conjunto, projetado para o consumo de drogas que alteram a mente, \u00e9 sinal n\u00e3o apenas do intrincado conhecimento bot\u00e2nico das pr\u00e1ticas rituais pr\u00e9-colombianas, mas tamb\u00e9m da natureza antiga e transcultural da vontade humana de levar o c\u00e9rebro al\u00e9m de seus limites\u201d, escrevem os editorialistas.<\/p>\n<p><strong>O s\u00e9culo 20 marcou a virada para subst\u00e2ncias sint\u00e9ticas com prop\u00f3sitos m\u00e9dicos espec\u00edficos.<\/strong> O metilfenidato surgiu nos anos 1950 para tratar sintomas de TDAH; a modafinila foi aprovada nos anos 1990 contra narcolepsia; e a lisdexanfetamina tornou-se op\u00e7\u00e3o para TDAH e compuls\u00e3o alimentar. \u201c<strong>S\u00e3o medicamentos de prescri\u00e7\u00e3o que acabam sendo usados fora da indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, geralmente por estudantes em \u00e9poca de provas, profissionais em ambientes de alta competitividade e, mais recentemente, at\u00e9 por <em>gamers<\/em> ou influenciadores digitais<\/strong>\u201d, diz Zoldan.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.nhsbsa.nhs.uk\/statistical-collections\/medicines-used-mental-health-england\/medicines-used-mental-health-england-201516-202223\">De acordo com o NHS<\/a>, o sistema de sa\u00fade p\u00fablica brit\u00e2nico, entre 2021 e 2023 a prescri\u00e7\u00e3o de estimulantes do sistema nervoso central para o tratamento do TDAH aumentou 32% em adultos e 12% em crian\u00e7as. Foi a primeira vez, desde o in\u00edcio dos registros em 2015, que mais adultos do que crian\u00e7as receberam essas prescri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/pmc.ncbi.nlm.nih.gov\/articles\/PMC6896602\/\">No Brasil, uma pesquisa de 2019<\/a><\/strong><strong> feita com universit\u00e1rios mostrou que 5,8% relataram uso de metilfenidato para \u201cmelhora cognitiva\u201d e que 41% usaram o medicamento nas quatro semanas anteriores ao estudo.<\/strong> Esses n\u00fameros, somados ao crescimento observado no Reino Unido durante a pandemia de Covid-19, apontam para um comportamento que tende a se intensificar diante das transforma\u00e7\u00f5es sociais recentes. \u201cNuma sociedade global em que a competi\u00e7\u00e3o por empregos atrativos \u00e9 intensa e estressante, e com a intelig\u00eancia artificial assumindo algumas fun\u00e7\u00f5es, \u00e9 prov\u00e1vel que o uso de drogas para aprimoramento cognitivo aumente em um ritmo ainda mais acelerado no futuro\u201d, avalia Sahakian.<\/p>\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK.jpg\"><img decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\" data-src=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK-1200x800.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129311 lazyload\" data-srcset=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK-600x400.jpg 600w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK-2048x1366.jpg 2048w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK-18x12.jpg 18w, https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/AdobeStock_857510369OK-510x340.jpg 510w\" data-sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1200px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1200\/800;\" \/><\/a><\/figure>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Mais desempenho ou mais toler\u00e2ncia?<\/strong><\/h2>\n<p><strong>Na pr\u00e1tica, o uso de <em>smart drugs<\/em> em pessoas saud\u00e1veis revela um descompasso: enquanto muitos relatam se sentir mais focados e produtivos, os resultados objetivos mostram ganhos pequenos ou inexistentes.<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.science.org\/doi\/10.1126\/sciadv.add4165\">Um estudo da Universidade de Melbourne<\/a>, na Austr\u00e1lia, publicado em 2023, avaliou o desempenho em tarefas complexas e concluiu que, embora essas subst\u00e2ncias aumentem o esfor\u00e7o cognitivo \u2014 como o tempo gasto e o n\u00famero de movimentos \u2014, elas reduzem a qualidade desse esfor\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>\u201cQuando os pesquisadores perguntaram como tinha sido a semana com o uso das medica\u00e7\u00f5es, mesmo quando era placebo, a pessoa se sentia melhor. Em parte, porque tanto o placebo quanto essas drogas estimulam a dopamina no c\u00e9rebro, <\/strong>j\u00e1 que influenciam a expectativa sobre o desempenho\u201d, explica o neurologista Fabiano Moulin de Moraes, professor da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp).<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Leia tamb\u00e9m<br \/><a href=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/es\/newsfitbr\/baru-e-castanhas-brasileiras-fontes-de-nutrientes-que-protegem-o-coracao\/\">Conhe\u00e7a o baru e as castanhas brasileiras, fontes de nutrientes que protegem o cora\u00e7\u00e3o<\/a><br \/><a href=\"https:\/\/www.fitnessbrasil.com.br\/es\/newsfitbr\/pre-treinos-funcionam-mesmo-conheca-indicacoes-e-riscos-desses-produtos\/\">Pr\u00e9-treinos funcionam mesmo? Especialistas falam sobre indica\u00e7\u00f5es e riscos desses produtos<\/a><\/strong><\/h2>\n<p>Segundo ele, a dopamina melhora o engajamento nas atividades, mas n\u00e3o a aten\u00e7\u00e3o em si. \u201cNa verdade, a pessoa n\u00e3o fica mais atenta, ela tolera ficar mais tempo naquilo que est\u00e1 fazendo. E, <strong>no fim, o desempenho tende a ser igual ao de quando n\u00e3o tomava. Mas, por se sentir mais engajada, acha que valeu a pena<\/strong>\u201d, completa Moulin.<\/p>\n<p><strong>O uso sem indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica tamb\u00e9m traz efeitos colaterais. De acordo com o psiquiatra do Einstein, no curto prazo s\u00e3o comuns ins\u00f4nia, ansiedade, agita\u00e7\u00e3o, palpita\u00e7\u00f5es, aumento da press\u00e3o arterial e at\u00e9 arritmias<\/strong> em casos mais graves. Pode haver ainda perda de apetite \u2014 preocupante em adolescentes e jovens \u2014, altera\u00e7\u00f5es de humor e, em situa\u00e7\u00f5es extremas, epis\u00f3dios de paranoia ou sintomas psic\u00f3ticos transit\u00f3rios.<\/p>\n<p>Em longo prazo, o uso cont\u00ednuo pode gerar depend\u00eancia, necessidade de doses maiores e problemas como preju\u00edzo cr\u00f4nico do sono, desgaste emocional, piora de quadros de ansiedade e depress\u00e3o, al\u00e9m de impacto cardiovascular em pessoas predispostas. \u201c<strong>No fim, o que preocupa \u00e9 que, em vez de realmente melhorar o desempenho, esse uso pode criar um ciclo de falsa produtividade:<\/strong> a pessoa acredita que est\u00e1 funcionando melhor, mas acaba sacrificando sa\u00fade mental, sono e equil\u00edbrio do corpo\u201d, conclui Zoldan.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quest\u00e3o social<\/strong><\/h2>\n<p>O uso de subst\u00e2ncias para melhorar a performance acad\u00eamica e profissional levanta dilemas que v\u00e3o al\u00e9m da sa\u00fade individual. Especialistas chamam aten\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es de m\u00e9rito, acesso desigual e at\u00e9 paralelos com o doping esportivo. \u201c<strong>A sociedade e os governos precisam considerar quem teria acesso \u00e0s drogas para aprimoramento cognitivo<\/strong>\u201d, destaca Sahakian. \u201cPor exemplo, elas seriam permitidas em situa\u00e7\u00f5es competitivas, como exames universit\u00e1rios, em que alguns estudantes podem considerar esse uso uma trapa\u00e7a?\u201d<\/p>\n<p>Ela ressalta ainda a necessidade de restringir o consumo em crian\u00e7as e adolescentes sem diagn\u00f3stico, j\u00e1 que, nessas fases, o c\u00e9rebro ainda est\u00e1 em desenvolvimento, e de avaliar o uso por profissionais que trabalham em turnos ou atividades em que pequenos erros podem gerar grandes consequ\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>As press\u00f5es de um contexto competitivo alimentam tamb\u00e9m um paradoxo. Sahakian conta que, embora muitos universit\u00e1rios tenham relatado n\u00e3o querer usar essas subst\u00e2ncias, eles tamb\u00e9m temem ficar para tr\u00e1s caso n\u00e3o fa\u00e7am o mesmo que seus colegas<\/strong>. Para o professor da Unifesp, isso reflete um problema maior. \u201cA gente vive em uma sociedade cujo objetivo final \u00e9 a produtividade. E eu n\u00e3o sei se as institui\u00e7\u00f5es v\u00e3o fazer alguma coisa a respeito porque acho que, inclusive, elas s\u00e3o as que mais ganham. Por isso, fingem que n\u00e3o veem essa epidemia de uso de estimulantes\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Segundo ele, seria preciso resgatar prioridades, valorizando a motiva\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca e formas consistentes de engajamento, como terapia, atividade f\u00edsica, sono adequado e at\u00e9 a espiritualidade. \u201cCoisas que realmente engrandecem, mas que a gente acaba fugindo e preferindo atalhos que n\u00e3o s\u00e3o sustent\u00e1veis a m\u00e9dio e longo prazo\u201d, diz Fabiano Moulin.<\/p>\n<p>Essa l\u00f3gica se conecta a uma reflex\u00e3o mais ampla sobre a cultura contempor\u00e2nea da performance. Zoldan lembra o conceito de \u201csociedade do cansa\u00e7o\u201d, do fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han, para explicar como a autocobran\u00e7a permanente se tornou marca do nosso tempo. \u201c<strong>Nesse cen\u00e1rio, as <em>smart drugs<\/em> aparecem como uma falsa solu\u00e7\u00e3o para prolongar a energia e atender a essa autossufici\u00eancia imposta pela cultura do desempenho\u201d<\/strong>, diz o psiquiatra. O risco, segundo ele, \u00e9 aprofundar o problema em vez de aliviar.<\/p>\n<p>Muitos casos de abuso podem inclusive ser confundidos com burnout, j\u00e1 que os sintomas \u2014 esgotamento, ansiedade, ins\u00f4nia e queda de rendimento \u2014 se sobrep\u00f5em. \u201cO que est\u00e1 por tr\u00e1s, muitas vezes, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a press\u00e3o do ambiente, mas o abuso de medicamentos usados como atalhos para lidar com essa press\u00e3o. Isso gera uma deteriora\u00e7\u00e3o silenciosa da sa\u00fade mental, que pode demorar a ser identificada e tratada corretamente\u201d, alerta o m\u00e9dico do Einstein.<\/p>\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Desigualdade e regula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p>O futuro desse debate depende da produ\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias cient\u00edficas mais consistentes. \u201c<strong>Se for comprovado que essas subst\u00e2ncias s\u00e3o seguras e eficazes a longo prazo, seria muito melhor que uma pessoa saud\u00e1vel consultasse um m\u00e9dico para verificar se n\u00e3o h\u00e1 contraindica\u00e7\u00e3o<\/strong> e, ent\u00e3o, pudesse adquiri-las em uma farm\u00e1cia. Seria mais seguro do que comprar pela internet ou pedir a um amigo com TDAH para repassar seus medicamentos prescritos\u201d, ressalta a pesquisadora de Cambridge.<\/p>\n<p><strong>Um dos pontos centrais \u00e9 a dificuldade em tra\u00e7ar a linha entre restaura\u00e7\u00e3o e aprimoramento cognitivo \u2014 quest\u00e3o que se desdobra na regula\u00e7\u00e3o<\/strong>. O desempenho mental atinge o auge na faixa et\u00e1ria dos 20 aos 30 anos e, a partir da\u00ed, tende a declinar. Nesse contexto, o uso de medicamentos pode ser interpretado tanto como a recupera\u00e7\u00e3o de uma fun\u00e7\u00e3o perdida quanto como um ganho artificial. A mesma ambiguidade aparece em situa\u00e7\u00f5es como <em>jet lag<\/em> ou trabalho em turnos noturnos.<\/p>\n<p>A classifica\u00e7\u00e3o, nesse caso, varia conforme o contexto cl\u00ednico e as normas regulat\u00f3rias de cada pa\u00eds. Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA) j\u00e1 aprovou o uso da modafinila para tratar o Transtorno do Sono no Trabalho em Turnos, depois de demonstrado que a droga reduz acidentes e quase acidentes em profissionais expostos. No Reino Unido, por outro lado, n\u00e3o existe essa indica\u00e7\u00e3o formal. <strong>\u201cEssa situa\u00e7\u00e3o demonstra a dificuldade, em algumas circunst\u00e2ncias, de determinar o que \u00e9 restaura\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o cognitiva e o que \u00e9 aprimoramento<\/strong>\u201d, completa Sahakian.<\/p>\n<p>Enquanto essas discuss\u00f5es n\u00e3o avan\u00e7am, a aus\u00eancia de regras espec\u00edficas favorece desigualdades: quem tem recursos consegue acesso; quem n\u00e3o tem, fica para tr\u00e1s. Diante dessa contradi\u00e7\u00e3o, especialistas concordam que os m\u00e9todos j\u00e1 conhecidos para fortalecer o c\u00e9rebro continuam sendo as alternativas mais seguras.<\/p>\n<p><strong>Sono adequado, exerc\u00edcio f\u00edsico, alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada e estrat\u00e9gias de manejo do estresse n\u00e3o apenas favorecem o desempenho cognitivo, mas tamb\u00e9m protegem a sa\u00fade no longo prazo<\/strong>. \u201cSe quisermos realmente melhorar a performance, precisamos priorizar h\u00e1bitos que sustentem o c\u00e9rebro em vez de depender de atalhos que podem custar caro para a sa\u00fade\u201d, conclui Luiz Zoldan.<\/p>\n<p><em>Fonte: Ag\u00eancia Einstein<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uso de rem\u00e9dios para foco e concentra\u00e7\u00e3o cresce entre alunos e profissionais; especialistas alertam para efeitos colaterais, risco de depend\u00eancia e desigualdade de acesso<\/p>","protected":false},"author":40,"featured_media":129306,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[430,70,28],"tags":[],"post_folder":[],"class_list":["post-129305","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaques","category-noticias","category-saude-e-bem-estar"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>&#039;Smart drugs&#039; 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