Esta é a primeira matéria da série especial “Educação Física que empreende”, em celebração ao Dia do Profissional de Educação Física, comemorado em 1º de setembro. Nesta edição, o FitBR News conta a história do fundador da WeHelp, do início como salva-vidas de hotel até a construção de uma empresa que atende mais de 2 mil academias na América Latina e nos Estados Unidos
Por Edinei Knop, da Fitness Brasil
1/9/2026
Toda trajetória de sucesso tem um ponto de virada que, olhando para trás, parece óbvio, mas que, no momento em que acontece, é só mais uma conversa qualquer. Para Rogério Aranda, hoje CEO e fundador da WeHelp, esse momento aconteceu num hotel no interior de São Paulo, aos 17 anos, numa conversa com um hóspede que ele mal conhecia.
De médico a profissional de Educação Física: uma virada de rota
Rogério sempre quis ser médico. Prestou vestibular para medicina por três anos seguidos, sempre mirando faculdades públicas (USP, Unicamp, Unesp) porque, vindo de uma família mais humilde, não tinha condições de pagar uma particular. “Passava para a segunda fase, mas não entrava”, relembra.
Enquanto isso, aos 17 anos, começou a trabalhar com recreação no Hotel Estância Barra Bonita, conciliando com o cursinho. Foi ali, numa conversa com um médico hóspede, que tudo mudou. “Falei que queria fazer medicina. Ele me disse: ‘Poxa, por que ao invés de cuidar da doença você não vai promover saúde? Faz Educação Física’.” A frase caiu como uma ficha. Rogério sempre tinha praticado esporte: vôlei, basquete, futebol, ginástica olímpica, handebol, natação. “Aquilo fez todo sentido para mim.”

Prestou vestibular para a FMU (Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas), passou, e pagou a própria faculdade com o trabalho no hotel. Formou-se em 1999.
Os primeiros passos: natação, crianças e um TCC sobre movimento
Ainda estudante, Rogério fez estágio em musculação na academia Kainágua, perto de casa, e depois na Raia 4, no Morumbi, indicado por uma amiga da faculdade. Foi ali que encontrou dois professores que marcaram sua formação: Alberto Klar e William Urizzi, com quem mantém contato até hoje.

O foco inicial de Rogério era a Educação Física escolar, para trabalhar com crianças. Seu TCC foi sobre padrão fundamental de movimento, e ele deu aulas de natação para crianças por muito tempo. “Foi incrível”, conta. Mas uma pergunta simples da namorada, hoje sua esposa, plantou uma nova dúvida: “Você vai querer dar aula de natação para sempre?”
Da sala de aula à gestão: a ascensão dentro da Bio Ritmo
Em 2000, a academia onde trabalhava foi vendida para a Bio Ritmo, que chegou com uma gestão mais profissional. Rogério se envolveu mais, fez cursos de vendas, de telemarketing, treinamentos e percebeu que não queria ser professor para sempre.
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A oportunidade surgiu quando se tornou coordenador de natação na Bio Ritmo de Santo Amaro, período em que a empresa implementava o programa de retenção “Face to Face”. Em 2003, cobrindo as férias do gerente da unidade, recebeu de Soraya Corona sua primeira chance como gestor: gerente da unidade do Shopping Continental, trabalhando ao lado de Sergio Arnaut, hoje proprietário da NitroGym.
De lá, assumiu a gerência da Bio Ritmo Morumbi, que considerava a unidade mais difícil de administrar na época: uma unidade de rua, com piscina e musculação. “Ali percebi que meu conhecimento em Educação Física não era suficiente”, relembra.
O investimento em formação e uma lição dura de Edgard Corona
Foi nesse momento que Edgard Corona investiu num programa interno de formação de lideranças, a Metanóia. Rogério fez o LAV (Líder de Alto Valor), “um despertar de consciência e competência”, nas suas palavras. Pouco depois, sentindo que o desafio estava ficando pequeno, decidiu cursar uma pós-graduação em Administração de Empresas na FGV.

Pediu ajuda a Edgard para pagar o curso. A resposta que recebeu se tornaria uma das lições mais marcantes de sua trajetória: “Rogério, eu não vou pagar, porque se você não investe na sua formação, por que eu, como empresa, tenho que investir?” Foi uma fala dura, mas Rogério bancou a pós sozinho, e a relação de investimento em formação continuaria: mais adiante, já como Diretor Regional, ele voltaria ao Metanoia, dessa vez com boa parte custeada pela empresa.
Diretor regional, testemunha da virada Bio Ritmo–Smart Fit
Como Diretor Regional, Rogério passou a cuidar de várias unidades ao mesmo tempo, com metas de margem bruta, engajamento de colaboradores (medido pelo Q12 da Gallup) e fidelização de clientes (CE11 da Gallup, depois NPS), a mesma métrica que, anos depois, se tornaria o centro do seu próprio negócio.

Ele viveu de perto um dos momentos mais importantes da história do mercado fitness brasileiro: a fusão de culturas entre Bio Ritmo e Smart Fit, inaugurada em 2009. “Em 2012, as reuniões de diretoria eram das duas marcas. Foi um momento importante de troca de experiência. A diretoria da Bio Ritmo era mais experiente, antiga, e apoiava a Smart no início. Mas também aprendíamos muito com o novo modelo de negócio da Smart: enxuto, ágil, com muita inovação.”
A decisão de recomeçar do zero, nos Estados Unidos
Em 2014, Rogério percebeu que a estrutura da Bio Ritmo estava ficando pesada frente aos resultados que gerava, enquanto a Smart Fit ganhava agilidade. Diante da encruzilhada, migrar para a Smart Fit, algo difícil pela diferença salarial da diretoria mais antiga, ou seguir outro caminho, uma decisão pessoal mudou tudo: ele e a esposa decidiram se mudar para os Estados Unidos.
Avisou Edgard Corona que seu projeto era empreender por lá. Chegou a receber uma proposta para cuidar de investimentos do grupo em academias e estúdios na Flórida, mas mudou de plano: decidiu seguir por conta própria, sem vínculo de expatriação. Em 2017, saiu do grupo Bio Ritmo/Smart Fit e fundou a WeHelp.
O início não foi fácil. “O primeiro ano foi de muita construção do software. Foi difícil: começar do zero, investindo dinheiro, longe da família e dos amigos.” Aos poucos, os primeiros clientes chegaram, e as coisas engrenaram.

A WeHelp hoje: de academia em academia para a América Latina inteira
Quase uma década depois, a WeHelp é uma empresa americana com sede em Orlando, na Flórida, e times atuando no Brasil e nos Estados Unidos, cerca de 20 pessoas ao todo, entre Rogério, dois sócios investidores e o sócio operacional Jorge William Laba, diretor de tecnologia. A empresa desenvolveu uma plataforma de gestão da experiência do cliente, com o NPS (Net Promoter Score) como ferramenta central para captar a voz do cliente e transformar isso em decisões estratégicas.
Hoje a WeHelp atende mais de 2.000 academias, incluindo redes de peso. Mas essa operação já ultrapassou as fronteiras do fitness: entre os clientes estão empresas de telecomunicações, clínicas médicas, locadoras de veículos, hospitais e mais. Cerca de 65% a 70% da carteira ainda vem do mercado fitness, presente hoje no Brasil e em praticamente toda a América Latina: México, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Colômbia, Peru e República Dominicana, além de clientes nos Estados Unidos.
A plataforma opera hoje com três módulos centrais, focados em retenção, modelos preditivos de análise de churn e ferramentas de escuta ativa do cliente, desenhados para complementar, não substituir, os grandes ERPs e CRMs que as academias já utilizam. “Os dados dos nossos clientes na WeHelp estão 100% disponíveis para eles em qualquer plataforma”, explica Rogério.
A empresa também se tornou uma presença conhecida da comunidade fitness brasileira através do Movimento de Excelência em Experiência do Cliente, iniciativa que premia com Selo e Troféu as academias com melhor desempenho em NPS, entregue anualmente durante a Fitness Brasil Expo.

O que move Rogério hoje
Passada a fase de maior risco, o que motiva Rogério atualmente é um sentimento de retribuição. “O que me move hoje é o propósito de retribuir ao mercado tudo o que ele me deu. Toda a minha trajetória e conquistas vieram do fitness. Quero melhorar as relações humanas no ambiente de trabalho.”
É uma lógica que ele aplica ao próprio produto: a WeHelp também mede o engajamento dos colaboradores das empresas clientes, na crença de que negócios prosperam quando escutam de verdade tanto o cliente quanto o próprio time. “O lucro das empresas vem desse investimento em pessoas, em construir uma equipe de alto desempenho que fideliza clientes.”
Quando olha para trás, o orgulho maior de Rogério não está nos números, mas no que ele chama de “intraempreendedorismo” — empreender dentro da própria empresa em que trabalhava. Na Bio Ritmo, foi o projeto de formação de líderes e o programa de acolhimento de novos colaboradores. Na WeHelp, é ver empresas que quase fecharam hoje abrindo a quarta unidade, ou redes que tinham 30 lojas e hoje têm 200. “Fazer parte do crescimento das empresas é muito legal.”

O conselho de quem já trilhou o caminho
Para o profissional de Educação Física que sonha em empreender, Rogério tem um conselho direto, fruto da própria trajetória: “Prepare-se. Busque conhecimento. A Fitness Brasil Expo é um excelente lugar para isso, especialmente o módulo de gestão com pessoas competentes. Busque conhecimento formal em administração e, acima de tudo, converse e ouça gente.”
E encerra com uma reflexão que resume boa parte de sua própria jornada: “Falar com pessoas que já passaram pelo que você está passando é fundamental para saber em quais buracos elas caíram, para que você talvez caia em buracos diferentes. Não espere receita de bolo, mas beba na fonte do conhecimento de outras pessoas.”
Esta é a primeira matéria da série especial “Educação Física que empreende”, produzida pelo FitBR News em celebração ao Dia do Profissional de Educação Física, comemorado em 1º de setembro. Acompanhe as próximas histórias de profissionais que transformaram sua formação em negócios de sucesso no mercado fitness.













































































































































































































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