O trânsito das capitais brasileiras rouba, em média, 130 horas por ano do trabalhador, quase o mesmo tempo que a OMS recomenda para atividade física semanal. Edina Camargo explica essa ironia cruel e por que a solução não pode recair apenas sobre o indivíduo
Por Prof. Dra. Edina Camargo, colunista Fitness Brasil
11/9/2026
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece que precisamos de 150 minutos de atividade física por semana para proteger o coração e prolongar a vida. Curiosamente, o teto estatístico que um trabalhador perde preso em congestionamentos nas grandes capitais brasileiras é de exatas 150 horas por ano. A ironia é macabra: a mesma métrica que a ciência nos pede como passaporte para a longevidade é o tempo que a estrutura das cidades nos impõe passar olhando para para-choques alheios, em absoluta imobilidade forçada.
O trânsito das grandes cidades brasileiras deixou de ser um mero gargalo logístico para se tornar um dos maiores indutores de adoecimento coletivo da nossa era. Passamos horas olhando para para-choques alheios, acumulando cortisol e tensões musculares, enquanto justificamos a nossa ausência nas academias, parques e pistas de corrida com a clássica e unânime frase: Eu não tenho tempo. Mas será que não temos tempo mesmo, ou estamos apenas entregando as nossas horas de vida para o asfalto?
+ Fitness Brasil Expo: o maior evento de fitness, saúde e bem-estar da América Latina
+ Siga a Fitness Brasil no Instagram
+ Faça parte do nosso Canal no WhatsApp
Para responder a isso, precisamos olhar para os números — e eles são assustadores. Dados de levantamentos globais de mobilidade urbana apontam que um cidadão que vive em capitais como Curitiba, São Paulo ou Recife perde, em média, entre 90 e 150 horas por ano travado exclusivamente em congestionamentos nos horários de pico. Em cidades com malhas viárias ainda mais saturadas, esse número ultrapassa facilmente as 100 horas anuais de imobilidade absoluta. Estamos falando de quatro a seis dias inteiros, de 24 horas cada, deletados do nosso calendário anual dentro de uma caixa de metal. (Dados baseados nos relatórios anuais de mobilidade urbana das instituições globais INRIX e TomTom Traffic Index).

Agora, façamos um cruzamento anatômico e temporal desse cenário com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a longevidade. Para deixar de ser considerado sedentário e proteger o sistema cardiovascular, a recomendação padrão é a prática de 150 minutos de atividade física moderada por semana. Se você cumprir essa meta com excelência durante as 52 semanas do ano, sabe qual será o seu investimento de tempo total? Exatas 130 horas.
A matemática é irônica e cruel. A mesma quantidade de tempo que a ciência exige para proteger o seu coração, regular sua glicemia, controlar sua ansiedade e estender a sua expectativa de vida saudável é, frequentemente, menor do que o tempo que você passa parado na Avenida das Torres (Curitiba), Avenida Marginal Pinheiros (São Paulo) ou na Avenida Agamenon Magalhães (Recife) em um único ano. Nós temos o tempo. Nós só estamos gastando-o travados na marcha lenta.
Enquanto estamos no trânsito, o corpo sofre um verdadeiro colapso silencioso. A postura sentada prolongada inibe o glúteo e sobrecarrega a coluna lombar. O estresse do engarrafamento eleva a pressão arterial e despeja hormônios catabólicos na corrente sanguínea. É o oposto exato do ambiente controlado pelo treinamento físico, onde o estresse gerado é agudo, saudável e indutor de adaptações metabólicas positivas, como a preservação da massa magra e a otimização mitocondrial.
Um dos desafios da vida atual nas capitais não é a falta de tempo, é a falta de estratégia intersetorial entre a nossa rotina e a nossa biologia. Se o trânsito nos rouba 130 horas de forma impositiva, precisamos resgatar as nossas 130 horas de saúde de forma deliberada.
A responsabilidade jamais é do trabalhador
Atribuir a responsabilidade individual a quem está preso em um engarrafamento é ignorar a realidade social do nosso país. As pessoas não escolhem passar duas horas no trânsito; elas são empurradas para isso pela desigualdade urbana, pela centralização dos empregos e pela falta de transporte público de qualidade. O trânsito não é uma escolha de estilo de vida, é uma imposição geográfica.
Se a responsabilidade não é do indivíduo, a solução não pode ser puramente individual. A resposta para esse problema está na gestão pública, na cultura das empresas e em estratégias inteligentes de urbanismo e saúde coletiva.
Soluções coletivas e de gestão (o que o poder público e as empresas devem fazer)
- A descentralização do trabalho (home office e híbrido): a maior ferramenta de saúde pública e mobilidade urbana dos últimos anos foi o teletrabalho. Empresas e órgãos públicos que adotam o modelo híbrido removem, de imediato, milhares de carros e ônibus das ruas, devolvendo tempo de vida diretamente para o(a) trabalhador(a);
- Flexibilização de horários (escalonamento): se todas as empresas, bancos e universidades entram às 8h e saem às 17h, o colapso é inevitável. Cidades inteligentes adotam horários escalonados (indústrias entram às 7h, comércio às 9h, serviços às 10h), diluindo o fluxo e suavizando o horário de pico;
- Políticas de descentralização urbana: levar os polos de emprego e universidades para as periferias e bairros mais afastados, em vez de concentrar tudo no centro de uma única capital. O melhor trânsito é aquele que não precisa acontecer porque o trabalho está perto de casa.

Soluções de gestão do tempo no trabalho: para quem é a conta?
Já que a estrutura das cidades demora para mudar, precisamos falar sobre o que é de imediato viável. No entanto, é fundamental entender que essas alternativas não servem para todos da mesma forma: algumas dependem da escolha do trabalhador, enquanto outras são obrigações de saúde corporativa e pública para resgatar quem já está esmagado pela rotina.
- Para quem tem margem na agenda — academias e parques próximos ao trabalho: se a sua realidade permite, em vez de sair às 18h e passar duas horas parado no trânsito para chegar em casa às 20h, a estratégia é treinar ao lado do trabalho logo após o expediente. Você otimiza o tempo: treina das 18h15 às 19h15 e, quando sai, pega a rua muito mais limpa. O horário de chegada em casa é o mesmo (20h), mas o ganho em saúde é imensurável;
- Para quem depende de transporte público viável — deslocamento ativo parcial: uma alternativa aplicável a quem tem trajetos um pouco mais curtos ou menos caóticos é descer um ou dois pontos antes e caminhar o restante do trajeto. Isso ajuda a atingir as metas de minutos diários da OMS. Porém, vale o alerta: essa prática só faz sentido se a segurança pública e a integridade física do trabalhador forem garantidas, jamais devendo ser cobrada de quem já está exausto após uma jornada abusiva;
- Para quem está esmagado pela rotina (a obrigação é da empresa) — ginástica laboral e pausas ativas: para a parcela da população que acorda às 4h, trabalha aos sábados por um salário-mínimo e não tem o luxo de escolher onde ou quando treinar, a solução precisa ser institucional. Se o trabalhador(a) perdeu horas sentado no trânsito e passará o dia exercendo funções repetitivas ou estáticas, o ambiente corporativo deve, obrigatoriamente, implantar pausas ativas (de 10 a 15 minutos) durante o expediente. É a saúde indo até o trabalhador(a), e não o trabalhador(a) sacrificando o seu escasso descanso por ela.
É preciso lembrar que estas soluções simples (para incluir na rotina), não atendem a todos
Apontar o dedo para o indivíduo e exigir que ele encontre tempo em uma rotina esmagada pela mobilidade urbana deficiente é uma injustiça social crônica. Propor soluções simplistas como ‘descer um ponto antes para caminhar’ beira o absurdo quando olhamos para a realidade da periferia: trabalhadores que despertam às 4h da manhã, enfrentam jornadas exaustivas de seis dias por semana por um salário mínimo e só retornam ao lar às 22h. Para essa parcela da população, o corpo já foi severamente castigado pela rotina de sobrevivência; não falta força de vontade, falta dignidade estrutural. Cobrar que essas pessoas ainda tenham energia para o exercício físico, sem que o poder público e as empresas assumam a responsabilidade por jornadas mais humanas e transportes eficientes, é terceirizar a responsabilidade por uma epidemia de sedentarismo que, na verdade, é fruto da desigualdade social.
Horas perdidas* no trânsito por ano (principais capitais)
| Posição | Capital | Tempo perdido em congestionamentos (por ano) | Equivalência em dias Inteiros (24h) |
| 1º | Curitiba (PR)** | 135 horas | ~ 5,6 dias |
| 2º | São Paulo (SP) | 132 horas | ~ 5,5 dias |
| 3º | Recife (PE) | 130 horas | ~ 5,4 dias |
| 4º | Belo Horizonte (MG) | 130 horas | ~ 5,4 dias |
| 5º | Porto Alegre (RS) | 125 hours | ~ 5,2 dias |
| 6º | Fortaleza (CE) | 121 horas | ~ 5,0 dias |
| 7º | Rio de Janeiro (RJ) | 92 horas | ~ 3,8 dias |
| 8º | Salvador (BA) | 81 horas | ~ 3,3 dias |
| 9º | Brasília (DF) | 58 horas | ~ 2,4 dias |
| 10 | Goiânia (GO)*** | 54 horas | ~ 2,2 dias |
* Os índices globais (como o da TomTom) são calculados usando como base os motoristas de carros. O trabalhador que depende de transporte público (ônibus e conexões de linhas) passa muito mais tempo parado no trânsito, atingindo e até superando facilmente a marca das 150 horas por ano.
**O Paradoxo de Curitiba e São Paulo: embora São Paulo tenha a fama de maior trânsito do país devido à frota, os índices mostram que o motorista de Curitiba passa, proporcionalmente ao tamanho das viagens, mais horas parado em picos de retenção (135h) do que o paulistano (132h).
***Até mesmo em Goiânia, a 10ª colocada, o trabalhador perde 54 horas por ano. Isso equivale a quase metade de todo o esforço de atividade física que uma pessoa precisaria fazer no ano inteiro para sair do sedentarismo.
Fontes dos dados de mobilidade urbana
- INRIX Global Traffic Scorecard – Link de referência: inrix.com/scorecard
- Índice TomTom de Trânsito (TomTom Traffic Index) – Link de referência: tomtom.com/traffic-index
Prof. Dra. Edina Camargo
Doutora em Educação Física,
Linha de pesquisa: Atividade Física e Saúde
Correo electrónico: edinacamargo@gmail.com
Instagram: @camargoedina
CREF 08347-G/PR













































































































































































































Spanish
Portuguese
Gostou? Compartilhe: