Uma paixão chamada corrida

Pioneiros em assessoria esportiva no Brasil, Marcos Paulo Reis, Mário Sérgio Silva e Ricardo Arap falam dos benefícios da atividade, dos negócios durante a pandemia e das perspectivas futuras

Por Yara Achôa, Fitness Brasil
31/8/2021

Não existem dados concretos com relação a praticantes de corrida de rua no Brasil. Mas estima-se que entre seis e dez milhões de pessoas calcem seus tênis de maneira esporádica ou com regularidade para percorrer alguns ou muitos bons quilômetros, em busca de saúde, boa forma, bem-estar e desafios. A pandemia, inclusive, teria colaborado para o aumento desses números. “De repente confinadas em suas casas, muitas pessoas viram como única alternativa sair para umas voltinhas pelas redondezas para movimentar o corpo, brecar o aumento de peso, dar um tempo no home office ou combater o estresse. Muitos começaram caminhando e vários evoluíram e até se apaixonaram pela corrida”, observa Marcos Paulo Reis, diretor técnico da MPR Assessoria Esportiva, um dos pioneiros em treinamento de corrida de rua para amadores no Brasil.

É fácil notar que há mais gente pelas ruas se dedicando à caminhada e corrida. Atividades democráticas e fáceis de serem praticadas ao ar livre, em qualquer lugar e horário, elas ajudam a prevenir obesidade, doenças do coração, diabetes, alguns tipos de câncer e melhorar até aspectos emocionais e aumentar a longevidade. Há quem tenha iniciado sozinho, colocando um pé na frente do outro. E existem os que procuraram orientação especializada de profissionais da educação física, visando não se machucar e/ ou evoluir em performance.


As assessorias esportivas de corrida, sem dúvida, são um bom ponto de partida para dar os primeiros passos com segurança, graças a planilhas individualizadas, planejadas de acordo com o nível do aluno. E com acompanhamento de treinadores que vivem o esporte, é possível sair do sedentarismo, se aperfeiçoar e chegar, quem sabe, até a maratona.

Assessoria X academia

O formato assessoria esportiva surgiu no início dos anos 1990, com nomes como Marcos Paulo Reis (MPR Assessoria Esportiva), Mário Sérgio Silva (Grupo RunFun) e Ricardo Arap (Race Consultoria Esportiva).

Formado em educação física pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o carioca Marcos Paulo chegou a São Paulo em 1989 e foi trabalhar no Projeto Acqua. Foi ali que se tornou preparador físico e passou a atender triatletas. Visionário e empreendedor, montava planejamentos de corrida e triathlon e entregava aos alunos. A partir de 1992, o negócio dos treinos individualizados começou a prosperar. Mas antes de seguir com sua assessoria esportiva propriamente dita, passou pelo Pão de Açúcar Club, idealizado pelo empresário João Paulo Diniz, o que revelou seu DNA de esporte em larga escala. No final da década de 1990, Marcos Paulo focou em sua própria marca, a MPR, que logo se tornou referência no Brasil e ajudou a alavancar o mercado running.

Também carioca, Mário Sérgio sempre esteve ligado ao esporte. Veio morar na capital paulista com 10 anos, começou a nadar no Clube Pinheiros e a se destacar nas competições. Viveu os anos 1980 como atleta profissional e na década seguinte tornou-se treinador. “Cuidava da equipe infantil de natação do clube, mas igualmente estava próximo à corrida. Em 1993, minha mulher na época manifestou o desejo de correr uma maratona e pediu que eu a treinasse. Respondi que não só treinava, como correria com ela. A experiência foi positiva, ela tomou gosto e começou a ir bem em provas, até subindo ao pódio. E quando perguntavam quem era o treinador, ela me indicava”, conta. Assim surgiu sua assessoria, que passaria a ser chamada de RunFun em 1996. “É um nome que traduz o que acredito: performance e qualidade de vida.”

Já o paulistano Ricardo Arap começou pouco tempo depois. Sua Race – nome inspirado na Race Across America, competição ciclística que atravessa os Estados Unidos da Costa Oeste à Costa Leste, da qual ele tinha participado – surgiu em 1998. “Observei o movimento da corrida crescendo e me inspirei especialmente nos passos do Marcos Paulo e do Mário Sérgio”, conta. Mas o esporte entrou na sua vida bem antes, por conta do incentivo dos pais. “Sou de uma geração que a criança tinha de fazer basquete para crescer e nadar para ficar forte. Adolescente gordinho e tímido, o esporte me abriu horizontes. Mudei meu peso, passei a sentir os benefícios da atividade física no dia a dia, conheci cedo a disciplina e a determinação. Tinha mais dedicação do que talento – e assim acabava me destacando. Desisti de ser médico, como meu pai, para fazer educação física.” Mas Arap quase abandonou a ideia de seguir na área do esporte e chegou a trancar o curso para fazer faculdade de publicidade. Foi em um trabalho temporário, como professor de natação para crianças, que ouviu que tinha nascido para ser educador físico. E seguiu em frente, passando a trabalhar com corrida e triathlon para amadores.

Mas qual a diferença entre assessoria e academia? “Na maioria das vezes, a academia é ferramenta para que a pessoa possa treinar, enquanto na assessoria existe uma relação mais próxima. Mas acredito que uma traga novos praticantes para a outra”, diz Mário Sérgio. “Para ser longevo no esporte, é preciso trabalhar todos os aspectos. Então, as enxergo como complementares”, concorda Arap.

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Impacto e reinvenção

Como em todas as áreas de negócios, para as assessorias esportivas as primeiras sensações causadas pela pandemia foram de susto e medo. “Procuramos agir rapidamente, para fazer o que tinha que ser feito, focados no que poderíamos resolver naquele momento. Mais do que o receio do aluno se afastar por uma questão financeira, temíamos que ele perdesse o envolvimento com o grupo, com os objetivos de corrida. Então nos organizamos para a realização de lives e desafios digitais e tivemos um ótimo retorno”, diz Mário Sérgio.

Sem provas e treinos presenciais – fator de motivação no universo running –, os treinadores precisaram se aproximar ainda mais dos alunos, adaptando a atividade física à realidade de cada um, o que chegou a incluir até a escadaria do prédio, além de oferecer opções de planilhas de exercícios funcionais e de musculação para quem não pudesse correr.

No cenário pandêmico, influenciadores digitais e aplicativos de esporte também ampliaram suas atuações, trazendo incentivo e praticidade. “Foi a porta de entrada para muita gente, o que é bom. Só que o app oferece o básico – não atende as necessidades individuais. E a rede social impacta, mas não prescreve ou dá continuidade a treinos de qualidade. O profissional de educação física é quem olha para a pessoa como um todo e pensa nos detalhes para evoluir e não se machucar”, defende Marcos Paulo.   

Modelos pós-pandemia

Com população de mais de 200 milhões de pessoas no Brasil, sendo metade considerada sedentária – que não faz atividades físicas, resultando em gasto calórico reduzido – e com o aumento da necessidade de se olhar com atenção para a saúde, os especialistas acreditam que existe um bom mercado para as assessorias.

“Aposto em modelos diferenciados, com grupos menores e mais exigentes ou que busquem alta performance, por exemplo, sendo atendidos por profissionais especializados. E acho que ainda temos de pensar em produtos de entrada, voltados para os caminhantes. Não à toa, as redes sociais estão conquistando esses grupos que as assessorias ainda não atendem por completo”, acredita MPR.

Outro caminho é compartilhar o know-how desenvolvido ao longo dos anos. “Acreditamos no crescimento do mercado e uma consequente necessidade de profissionalização do setor. Então desenvolvemos a metodologia RunFun, que entrega soluções por meio do app e capacita treinadores. Funciona assim: os profissionais são treinados pela R&F em dois dias de conteúdo teórico e dois dias de prática, acompanhando como trabalhamos. Estou particularmente animado para dar continuidade ao projeto”, conta Mario Sérgio, que lançou o projeto antes da pandemia.

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As apostas dos especialistas

Eles acreditam em um novo boom da corrida nos próximos tempos, por conta do aumento de pessoas que começaram a se exercitar na rua enquanto as academias e estúdios estiveram fechados. “Ainda estamos observando o mercado, mas a expectativa é boa. O momento agora é de aprender, desaprender e reaprender. O boca a boca é importante, mas usar ferramentas do marketing nos ajuda a chegar a mais pessoas”, diz Mário Sérgio, que no Grupo RunFun oferece treinamento de corrida, caminhada e ciclismo; aulas funcionais digitais (ao vivo e gravadas, para atletas individualmente ou empresas); treinamento à distância e mais recentemente corrida de montanha e mountain bike.

O “marketing” de Marcos Paulo sempre foi excelente atendimento e alta performance – ao longo dos anos, com resultados muito positivos de seus alunos em provas, a marca passou a ser relacionada à eficiência esportiva. Ele, que tem a seu lado na MPR os sócios Emerson Gomes, Fabio Rosa e César Augusto, continua atraindo atletas em busca de grandes desempenhos, mas também recebe os que buscam qualidade de vida com a prática de corrida, ciclismo e triathlon, com diferencial de um aplicativo próprio e acompanhamento full time. A assessoria já oferecia treinamento à distância, bastante procurado por atletas de todo o Brasil, e com a pandemia entendeu que o formato atende até mesmo alunos de São Paulo, sede da empresa. “Seguimos com nossas equipes em dias e horários específicos em parques, mas temos visto que, cada vez mais, as pessoas querem treinar conforme suas conveniências.”

Arap – pioneiro no empréstimo de bicicleta para treinos, uniformização e pedal kids e que hoje oferece treinos de corrida, ciclismo, triathlon, ciclismo teen e infantil – acredita que não é a estrutura de uma assessoria que faz diferença, mas a experiência que se desenvolveu ao longo dos anos. E ele particularmente aposta no atendimento individualizado e humanizado. “Para mim, o profissional de educação física é naturalmente um doador de serviços. A maioria entendeu que tem de saber o nome de cada aluno, mas acho que tem de ir além. Eu sei da vida de cada aluno meu e me empenho em lidar da melhor maneira possível com eles.” 

Fotos Andrea Piacquadio, Ketut Subiyanto, Run 4 FFWPU, William Choquette (Pexels); Gabin Vallet (Unsplash); arquivo pessoal

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