Com o mercado de academias quase triplicando em uma década, especialista em saúde mental explica por que rotatividade, metas mal estruturadas e falta de confiança colocam em risco a sustentabilidade do crescimento e por que a NR-1 no fitness pode ser o empurrão que faltava
Por Flavia Brunoro, colunista Fitness Brasil
6/8/2026
Segundo o Panorama Setorial Fitness Brasil 2025, o mercado de academias no Brasil vive uma fase de expansão, tendo quase triplicado o número de centros de atividade física em dez anos. Esse crescimento vem sendo impulsionado pela busca por saúde e longevidade, com clientes cada vez mais exigentes e frequentes.
Mas nem todo crescimento é sinal de competência. A questão que se coloca é: como as academias enfrentarão os desafios dos próximos anos? Como conseguirão equilibrar metas de atratividade e retenção, liderança qualificada e um ambiente de trabalho saudável?
De acordo com Patrícia Pousa, executiva de Recursos Humanos, doutora em Saúde Mental e membro do Comitê de Saúde da ABRH-SP, “equilibrar desempenho e saúde mental não significa reduzir expectativas, mas construir ambientes capazes de sustentar resultados ao longo do tempo”.
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A especialista também destaca a importância da NR-1: mais do que uma exigência regulatória, “a prevenção dos riscos psicossociais, necessariamente, passa pela forma como o trabalho é concebido, organizado e liderado”.
Para que esse crescimento seja sustentável e longevo, é preciso olhar para três aspectos da gestão que se conectam entre si: a rotatividade da equipe, a definição de metas de desempenho e a construção de relações de confiança.
Rotatividade
A alta rotatividade gera muitos transtornos para a empresa: perda de habilidades, ruptura de relacionamentos já construídos com os clientes, e efeitos colaterais importantes para quem fica — aumento da carga de trabalho, execução de tarefas fora do escopo, mais estresse e insegurança. Essa espiral negativa tende a reduzir a qualidade do trabalho e a atratividade da empresa para novos colaboradores, o que se torna um fator crítico para a sustentabilidade do negócio.
Metas de desempenho
O problema não está em ter metas desafiadoras, mas em apresentá-las sem o suporte necessário: apoio da liderança, autonomia, feedbacks constantes, treinamento contínuo, programas de reconhecimento e recursos operacionais adequados. Metas inalcançáveis prejudicam a aprendizagem, a criatividade e o engajamento — o que impacta negativamente o ambiente e, consequentemente, a saúde dos colaboradores e da empresa como um todo.
Relações de confiança
Por fim, a construção de relações de confiança — entre liderança e equipe, entre colegas, entre a empresa e cada colaborador — é o que sustenta os dois pontos anteriores. Sem confiança, feedbacks viram avaliação punitiva, metas desafiadoras viram pressão insustentável, e a rotatividade se perpetua como sintoma, não como causa. Confiança se constrói com transparência nos processos, coerência entre discurso e prática de liderança, e espaço real para o colaborador errar, aprender e pedir ajuda sem medo de julgamento.
A NR-1 trouxe luz aos riscos psicossociais e ao fato de que abrir uma nova academia precisa contemplar não somente equipamentos de última geração e espaços bonitos de convivência para os clientes, mas também a devida atenção à profissionalização da gestão, à valorização da área de recursos humanos, à clareza dos objetivos a serem alcançados e às expectativas de desempenho e comportamento.

As empresas que conseguirem humanizar suas relações — no nível de clientes e de colaboradores —, mantendo a motivação e o engajamento para a conquista de resultados superiores, alcançarão uma qualidade de vida saudável e longeva.
O setor cresceu quase três vezes em uma década — mas o número de unidades não é sinônimo de solidez organizacional. As empresas que vão liderar os próximos 10 anos não serão necessariamente as que crescerem mais rápido, e sim as que conseguirem sustentar esse crescimento sem esgotar quem o viabiliza todos os dias: professores, recepcionistas, equipe comercial, gestores de unidade. A NR-1 não é o ponto de chegada dessa conversa — é o empurrão regulatório que faltava para que a gestão de pessoas deixe de ser um departamento de suporte e passe a ser, de fato, parte da estratégia de crescimento.
A pergunta que fica não é mais “quantas academias abriremos este ano”, mas “quantas dessas academias terão gente saudável o suficiente para sustentar esse crescimento pelos próximos dez?”













































































































































































































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