O fundador da Sett Academia conta, em nova entrevista da série sobre profissionais de Educação Física que empreenderam, como passou de professor de sala a pioneiro do personal trainer
Por Edinei Knop, da Fitness Brasil
27/10/2026
A Sett Academia, em São Paulo, atende de 500 a 600 alunos, reúne mais de 100 colaboradores e trabalha com ticket médio entre R$ 2.500 e R$ 3.000. O caminho do fundador, Flávio Settanni, até esses números começou em uma profissão que, segundo ele, era vista como limitada e pouco promissora.
Em entrevista para a série especial “Educação Física que empreende”, Settanni relembra a formação, a descoberta do personal trainer, a criação de uma academia boutique e o que pensa sobre o mercado atual.
Uma profissão pouco valorizada e a escolha pela faculdade paga
Settanni entrou na faculdade de Educação Física aos 17 anos, há cerca de 40 anos, e se formou aos 19. Bom aluno, gostava de ajudar colegas com dificuldade e imaginava ser professor. Amigos e familiares, porém, viam a escolha como pouco ambiciosa para quem tinha bom desempenho.
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Na época, segundo ele, as saídas eram dar aulas em escolas e faculdades ou atuar como preparador físico de clube. Settanni chegou a ser aprovado na USP, mas preferiu pagar uma faculdade em Santo André. A grade da universidade pública, de quatro anos, não permitia trabalhar. Nas particulares, o curso durava três, e ele trabalhou desde o primeiro semestre.
Os primeiros anos foram difíceis. Como professor de sala de musculação, com remuneração baixa e pouca perspectiva, ele conta que duvidou da escolha entre os 20 e os 23 anos. Mesmo assim, já negociava participação nos resultados quando ajudava academias menores a aumentar o número de alunos.
O personal trainer como virada de carreira
A mudança veio quando Settanni descobriu, em publicações estrangeiras em inglês, o conceito de personal trainer, que praticamente não existia no Brasil. Ele se considera um dos primeiros a atuar no país e precisava explicar o modelo aos clientes. “Eu não queria ser personal trainer, eu queria ser O personal trainer”, diz.

Dos 23 aos 28 anos, trabalhou sozinho. A renda e o status mudaram, e ele chegou a ser capa de revista. Com a agenda lotada, passou a recusar clientes e percebeu que o tempo físico era o limite do negócio.
A solução foi treinar uma equipe de professores de confiança para atender em residências, condomínios e academias. O time cresceu, e com ele a vontade de implantar ideias que os espaços parceiros não permitiam.
Sett Academia: o negócio próprio nasce de um limite
Para Settanni, havia duas opções: reclamar ou resolver. A saída foi abrir o próprio espaço, com uma sócia. Há cerca de 15 anos nascia a Sett Academia, que ele descreve como a primeira academia boutique do Brasil. O mercado, lembra, estranhou a aposta.
O modelo dominante eram os grandes clubes, com estrutura para até cinco mil pessoas, piscina, quadras e muitas modalidades. A Sett propôs o contrário: menos oferta esportiva, serviço diferenciado e mensalidade bem mais alta, mais alinhada ao que as pessoas buscavam naquele momento.
O método da Sett Academia: treino sob medida, sem hora marcada
O formato surgiu de um problema. Em São Paulo, a hora marcada virou fonte de frustração, com atrasos e aulas perdidas. Na Sett, todo aluno faz uma entrevista com Settanni na matrícula, que orienta o planejamento do treino, montado com os coordenadores. Depois, o aluno vai quando quiser e encontra professor disponível. “Você não precisa ter agenda para ter personal trainer”, resume.


A unidade conta com 100 colaboradores entre professores, manutenção e limpeza, e de 500 a 600 alunos. Settanni também desenvolve projetos de metodologia para construtoras de São Paulo que querem montar salas com a lógica do personal.
Segundo ele, o DNA da Sett está no treino, e não na hotelaria. Há mimos, mas ele critica academias de alto padrão que investem mais nesse lado do que na qualidade técnica. Também gosta do bem-estar e vê espaço para ele, desde que não venha antes do treino.

Três mercados em 15 anos
Para o empresário, o setor que ele encontrou ao começar, o do surgimento da Sett e o de hoje são três mercados diferentes. Primeiro vieram os grandes clubes. Depois, as redes de baixo custo, que levaram muita gente ao fitness, mas, na avaliação dele, prejudicaram academias de bairro sem serviço consistente ou sem capacidade de atualizar equipamentos.
Os clubes tiveram de se reinventar, e surgiram as plataformas de acesso e as academias de alto padrão. A orientação dele é adaptar-se sem perder o centro: quando a academia abandona o próprio DNA para competir por preço, entra em uma disputa que não ganha.
O que separa quem prospera
O personal trainer de sucesso, afirma, vai além de montar bom treino. Precisa de dedicação, comunicação, atualização e capacidade de falar a mesma língua do aluno. A hora de treino tem de ser agradável e gerar resultado, porque faltando uma das duas, a pessoa não permanece. Na Sett, os professores são treinados para abordar perfis que vão do treino intenso a quem busca uma espécie de terapia.
Sobre inteligência artificial, Settanni diz que consultoria de treino e dieta a ferramenta já faz sozinha. “O que muda é aderência”, afirma, ou seja, quanto o profissional consegue convencer a pessoa a seguir o programa.
Ele vê oportunidade na musculação voltada à saúde. Depois da pandemia, médicos e nutricionistas passaram a recomendar o treino de força, e as pesquisas associam massa muscular saudável ao envelhecimento, à funcionalidade, ao metabolismo e à prevenção de doenças.
Empreender em São Paulo e no interior
Settanni define o Brasil como um lugar desafiador para empreender, com tributação nova que ainda gera dúvidas e margens menores do que no passado. Em São Paulo, diz, é preciso ser muito diferenciado ou ter muito caixa para sustentar a concorrência e os custos de operação.
No interior, vê mais espaço, sobretudo em cidades pequenas onde as redes de baixo custo ainda não chegaram. Já aconselhou ex-integrantes da equipe a abrir academia na cidade de origem.
O que o move, afirma, é gostar de gente. “Educação física, para mim, é para quem gosta de pessoas. Quem quiser seguir o mesmo caminho, deve olhar para quem reverteu a ideia de que a área não dá dinheiro. Para quem não gosta de pessoas, não quer se dedicar nem entregar energia, não vai dar certo”.













































































































































































































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