Estamos vivendo mais… e melhor?

Por Mauro Guiselini, colunista Fitness Brasil

De acordo com as Nações Unidas, existem 705 milhões acima de 65 anos no mundo – contra 680 milhões entre zero e quatro anos. Pela primeira vez na história, há mais idosos no mundo do que crianças pequenas.

No Brasil, a última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a expectativa de vida dos brasileiros subiu para 76 anos. O processo de envelhecimento é característico dos seres vivos, a espécie humana tem particularidades muito interessantes – encontramos relatos de pessoas que viveram mais de 120 anos! Realmente são dados fantásticos pois mostram que temos uma estrutura biológica para vivermos muitos anos.

O importante é viver mais, porém com melhor qualidade de vida possível, autonomia e independência. Esse é, sem dúvida, o desejo de todos.

O exercício pode retardar o processo de envelhecimento?

Esta é uma questão muito discutida entre os especialistas, no entanto, o exercício não tem a capacidade de influenciar no seu código genético – fatores hereditários. Até então é sabido que não interfere no seu DNA, mas os seus efeitos são inúmeros.

O fato de os idosos que se exercitam terem uma saúde melhor em comparação aos que são sedentários, pode levar as pessoas a acreditarem que a atividade física pode retardar o processo de envelhecimento. Mas a realidade é que esses idosos ativos são exatamente como deveriam ser.

Em um passado distante, éramos todos caçadores-coletores e nossos corpos foram desenvolvidos para serem fisicamente ativos. No entanto, não existia medicamentos, procedimentos, que impedissem que, muito embora tivéssemos um potencial genético para viver muitos anos, doenças hoje consideradas de fácil tratamento, provocavam a morte prematura de milhares. Cuidados de higiene, água potável, saneamento básico aumentaram muito a expectativa de vida das pessoas.

Portanto, se uma pessoa ativa de 80 anos tem uma fisiologia semelhante a um indivíduo de 50 anos, é a pessoa mais jovem que parece mais velha do que deveria – e não o contrário. É muito comum encontrarmos jovens que aparentam muito mais velhos do que a sua idade cronológica. E o inverso.

Os efeitos do sedentarismo

O termo inatividade física é utilizado, na nossa opinião, de forma inadequada. Pois inativo significa que não tem atividade, que não está ativo; parado, paralisado que não tem atividade.

É mais adequado utilizarmos a palavra sedentário – aquele que, ao longo do dia gasta muito poucas calorias a mais do que aquelas necessárias para as suas funções básicas (metabolismo basal) e demais atividades de sobrevivência. Na realidade realiza um mínimo de atividades físicas.

Muitas vezes confundimos os efeitos da falta de atividade física mínima necessária para o bom funcionamento do corpo com o próprio processo de envelhecimento. E acreditamos que certas doenças são puramente resultado da idade avançada.

Na verdade, o estilo de vida sedentário moderno simplesmente acelera nosso declínio relacionado à idade. Isso contribui para o aparecimento de doenças como diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares e câncer.

Muitos de nós simplesmente não somos ativos o suficiente. Na Inglaterra, menos da metade dos jovens de 16 a 24 anos seguem a recomendação de praticar exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular; na faixa dos 65 a 74 anos, essa proporção cai para menos de um em cada 10.

Os efeitos do exercício

O exercício não só ajuda a prevenir o surgimento de muitas doenças, como também contribui para curar ou aliviar outras, melhorando nossa qualidade de vida. Estudos recentes com ciclistas amadores com idades entre 55 e 79 anos indicam que eles têm a capacidade de realizar tarefas diárias com muita facilidade e eficiência, porque quase todas as partes do seu corpo estão em ótimas condições. Os ciclistas também apresentaram pontuação alta em testes que medem agilidade de raciocínio, saúde mental e qualidade de vida.

No mundo de hoje, somos capazes de driblar problemas relacionados ao sedentarismo nos apoiando na muleta da medicina moderna. Mas embora a nossa expectativa média de vida tenha aumentado muito rápido, o nosso “tempo de vida saudável” – período da vida que podemos aproveitar livre de doenças – não aumentou.

Muitos dos que vão se beneficiar do aumento da expectativa de vida projetada até 2035 passarão seus anos extras com quatro doenças ou mais, de acordo com um estudo realizado na Inglaterra. Embora a medicina esteja evoluindo o tempo todo, o exercício pode fazer coisas que os medicamentos não conseguem. Se você tem hipertensão arterial, diabetes tipo I, gastrite, entre outras doenças, a indústria farmacêutica disponibiliza centenas de medicamentos para ajudar na cura dessas e outras centenas que dependem do tratamento farmacológico.

Porém, para a tristeza de muitos, atualmente, não existe remédio disponível para evitar a perda de massa e força muscular, principal fator responsável pela perda das funções físicas e para ajudá-lo a levantar da cadeira e caminhar – somente a prática regular do exercício físico pode ajudar o idoso a evitar a diminuição drástica da massa muscular – sarcopenia, da força muscular – dinapenia e devolver a autonomia motora.

O nosso desafio

É, sem dúvida, motivar o idoso a levantar da cadeira, sofá e começar a se movimentar, sair do estado sedentário e, na sequência, participar de um programa de exercícios orientados por profissionais especializados.

O foco principal do treinamento para idosos é devolver a ele a “funcionalidade…a capacidade de estar adaptado ao seu ambiente com autonomia, independência, liberdade e alegria”.

Prof. Dr. Mauro Guiselini é licenciado e mestre em Educação Física pela USP. Doutor em Ciências do Movimento Humano na UNIMEP. Tem especialização em Fitness Leadership pela American Fitness Aerobic Association, Fitness Specialist for Older Adults, Biomechanics of the Resistance Training e Personal Fitness Specialist no The Cooper Institute – Dallas. Tem 54 anos de experiência atuando como professor universitário, personal trainer, gestor, professor de aulas coletivas, técnico esportivo e professor na área escolar. É autor de 38 livros e 16 vídeos relacionados à educação física infantil, cardiologia, obesidade, atividade física, saúde treinamento e avaliação multifuncional. É diretor do Instituto Mauro Guiselini de Ensino e Pesquisa

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3 thoughts on “Estamos vivendo mais… e melhor?

  1. Carlos Alberto Santos Brasil says:

    Sensacional dr o seu artigo posso dizer assim… Fiz um curso do sr online e também participei de uma palestra sua na faculdade onde me formei. Desde então, meu desejo maior é participar de um curso seu presencial. Parabéns pelo profissional que o sr é. Sou professor de educação da terceira idade e quando tenho alguma dúvida recorro aos seus vídeos e alguns textos manuscritos. Um grande abraço e até o próximo texto.

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Martha Gabriel

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